quarta-feira, 17 de outubro de 2012
I'm in charge of cups and ice!
terça-feira, 9 de outubro de 2012
O que vou ser quando eu crescer?
A professora finaliza a aula passando a tarefa que os alunos deverão fazer no final de semana:
— Para a próxima aula, cada um vai produzir um texto sobre a profissão que vocês querem ter quando crescerem. Você, Mário, que profissão quer seguir?
— Advogado, professora. Meu pai é advogado e me explicou que todo mundo precisa conhecer as leis. Se já vou ter que conhecer as leis, aproveito e viro advogado...assim estudo tudo de uma vez só! — respondeu o aluno feliz com sua lógica.
—Interessante — disse a professora sem querer desencorajar o menino.
— Professora, eu vou ser escritor, professora! — emendou Luiz.
— Que legal, Luiz! A profissão de escritor é muito interessante. Por que você escolheu essa profissão? — perguntou a inocente e crédula professora.
— Ah! Eu adoro inventar histórias e contar tudo para todo mundo, mesmo. Acho que deve ser legal ficar o dia inteiro sentado criando um monte de mentiras que todo mundo vai acreditar e vão pagar para ler.
— Claro, claro, entendi. Mas essas histórias não são mentiras, Luiz. Quando escrevemos histórias partindo da nossa imaginação, elas são chamadas de histórias de ficção. — explica a professora entes de ser interrompida por uma de suas alunas, esticando o braço bem alto para conseguir a permissão da professora — Pode falar, Júlia.
— Professora, eu quero ser médica. Quero ajudar as pessoas que estão doentes para ficarem boas logo.
— Que ótimo, Júlia! — responde a professora entusiasmada — Medicina é uma profissão de muita responsabilidade, exige muito estudo e dedicação, mas... — é interrompida por Júlia.
— Ah! Então, deixa pra lá! Prefiro ser professora mesmo...
terça-feira, 2 de outubro de 2012
Ops!
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
Direitos e deveres do consumidor
Até onde vai o direito do consumidor? Se comprarmos um objeto em determinada loja e esse objeto precisa ser trocado, até onde é dever da loja intervir e auxiliar o consumidor nessa troca? Qual o limite determinado para essa camaradagem? É difícil saber. Se o objeto que adquirimos for uma cópia de um documento, por exemplo, certamente a papelaria irá trocar a cópia, ainda que o defeito tenha sido causado pela máquina copiadora. O valor do produto é pequeno e não convém explicar para o consumidor que o problema foi causado pela máquina marca tal e que a cópia deveria ser paga pela fábrica da máquina. Algo nesse sentido soaria ridículo e absurdo. Troca-se a cópia e fica a cargo do dono da papelaria entrar em contato com o fabricante da máquina tal para que seus problemas sejam resolvidos e ele seja ressarcido de qualquer prejuízo, por menor que tenha sido. Mas, e se o produto é mais caro? E se um carro tem um problema e ele ainda está na garantia, como será que se comporta a empresa que vendeu o carro? Será que ela faz tudo o que for necessário para que seu cliente não tenha problemas desnecessários com o reparo de seu veículo? Ou será que ela assiste de camarote seu cliente aflito tatear uma saída justa dessa situação constrangedora?
Alguns dias atrás descobri a resposta. A revenda assiste de camarote e comendo pipoca. O consumidor deve entrar em contato direto com a montadora para ter seu carro guinchado onde quer que tenha quebrado. A montadora não envia nenhum automóvel para resgatar o cliente, que deve, por conta própria, chamar um taxi e pagá-lo para poder chegar em casa com segurança. Afinal, a montadora é responsável pelo carro. O cliente é apenas um número de cartão de crédito, de telefone ou de contrato de compra... vai saber o que se passa na cabeça de uma montadora, não é? Na cabeça do cliente, eu sei muito bem o que se passa em um momento assim:
_ !@$&**@! Comprei um carro novo, não tem nem um ano, e essa @#$!!% já deu problema...e além disso tô aqui com cara de tonto, sem carro, esperando um taxi, que eu vou pagar, vir me buscar...Pelo menos o carro está na garantia...ufa!
Pobre cliente, mal sabe ele que a garantia não cobre o “mau uso” de um veículo e que de agora em diante não há muito que ele possa fazer. Carro extra? Não. Garantia? Não. Responsabilidade por parte da revenda? Imagina... aqui nós só vendemos o carro...na nossa opinião o senhor está certíssimo, não há como ser mau uso..o carro é novo, mas a montadora disse que é, então....deve ser!
Resultado, duas semanas sem carro, um cliente ligando todos os dias para a revenda para conseguir notícias do processo (a revenda disse que ia ligar, mas sabe como é, né? Natal... Ano Novo...) e uma conta de R$800,00. Será que a peça nova que vão colocar no carro tem garantia de verdade ou vai ser sempre assim?
Engraçado, esse mesmo consumidor já dirigiu vários outros carros durante sua vida, nenhum teve esse problema de “mau uso”... será que ele ficou mais relaxado com esse carro novo? O mais engraçado é que em diversos blogs de reclamação na internet encontramos pessoas que tiveram o mesmo “mau uso”... Êta país de gente barbeira e ótimas montadoras, que jamais erram e nunca fabricam peças ruins e com defeito, sem contarmos as revendas boas e honestas que se preocupam com seus clientes e correm atrás dos direitos deles... é uma maravilha...a gente pode até viajar sossegado nesse final de ano....ops...esqueci...tô sem carro!
OBS: Optei em não dizer de qual montadora alemã se trata, pois isso pode acontecer com qualquer uma delas. Tudo bem que com os outros carros que tive de outras montadoras isso nunca aconteceu, mas, com certeza eu tomava mais cuidado naquela época. Também não acredito que deva nomear a revenda, afinal deve ter mais de uma Norpave por aí e não quero incriminar a revenda errada. Só aqui em Londrina, na Avenida Tiradentes, têm duas. No mais, fico por aqui!
Das Auto!
domingo, 5 de dezembro de 2010
Ela
Foi tudo muito confuso e muito corrido. O que para nós pareceu durar horas, não chegou a 30 minutos de medo e angústia. Eu ouvia os pedidos de ajuda emaranhados aos gritos de dor. Ela gritava meu nome esperando que eu soubesse exatamente o que fazer. Pedia-me insistentemente que o salvasse, e eu não podia fazer nada além do que já estávamos fazendo.
Naquele dia, passamos do riso gostoso e molhado do dia de verão ao choro incontrolável. Entrei em choque. Hoje consigo contar o que aconteceu, mas cada um de nós acabou capturando um detalhe particular... passamos pela mesma dor, mas cada um de uma maneira diferente e, no final do dia, temos mais de uma versão dessa mesma história.
Para mim, eu não fiz nada. Fiquei calma, eu me lembro, tentei ajudar da melhor maneira possível, mas não me recordo da minha calma ter sido útil... eu não sei ao certo o que fiz de bom e de ruim nessa grande confusão.
Ela, e disso tenho certeza, se atirou ao chão e dentro de seu desespero salvou uma vida. Ela não sabia o que fazer, estava tão assustada quanto o restante de nós, mas não pensou...agiu. E, nesse momento, eu a admirei.
Aquela pessoa sempre frágil e de fala mansa, que passou anos ocupando-se dos problemas alheios, ela foi forte. Ontem, conversando à toa, disse que agiu por impulso e por amor. Durante essa semana, ouvi de tudo. Teorias absurdas sobre o que aconteceu, gente tentando entender o que não viu, e nós, cada um com sua versão dos fatos, tentamos explicar para os outros tudo o que vimos, mas que não entendemos.
Ao final de tudo, as confusões são muitas. Dentro dos ônibus as histórias rolam soltas. Entre os familiares as versões se multiplicam, hoje já nem sei quantas são. Mas a verdade é que ele está bem. Ela está cansada. Ele está confuso. E eu ...descobri que no dia em que mais sofremos, eu a admirei um pouco mais.
domingo, 7 de novembro de 2010
Gentileza e educação!
Em tempos de campanha política, ouvimos
de tudo um pouco. Pensamentos filosóficos são lançados ao vento sem o menor enrubescimento por parte do filósofo.
Não vamos entrar aqui em discussões político-sociais. Não é o “partidarismo” dos comentários que me espanta, mas o fato de, na maioria das vezes, serem contraditórios ao ponto de ofenderem apenas a inteligência dos que ouvem e a imagem dos que o reproduzem.
Há pouco tempo, por exemplo, ouvi na mesa de um bar qualquer algo interessante. A pessoa indignada com a situação política do país (e com boa dose de razão) quis defender suas ideias com ago similar à seguinte frase: “O nosso atual presidente é um analfabeto. Estamos levantando a bandeira de que estudar não é necessário. E ele também não fez nada além do que o presidente anterior (falando aqui sobre FHC) havia feito...o país continua igual”.
A conversa seguiu seus rumos naturais de toda conversa de bar, e, no final, já falávamos sobre qualquer outro assunto um tanto mais banal.
Todavia, pensei cá com meus botões: se, em um país como o nosso, com as taxas de analfabetismo que temos (funcional ou não), fôssemos esperar o proletariado graduar-se, defender uma tese qualquer e, só então, candidatar-se à presidência, continuaríamos, para sempre, sendo governados pela elite financeira que, em teoria, não quer educar o proletariado. Uma grande bola de neve.
Mas...tudo bem, eu entendi que a mensagem de vencer sem estudos vai contra a nossa educação pequeno-burguesa. Eu compreendi a crítica de meu colega de bar, afinal, somos criados para buscar o sucesso pelo esforço próprio e pelos estudos e conhecimento. Só achei engraçado que, segundo meu amigo, um sociólogo e um analfabeto tinham conduzido o país de maneira muito similar. Dessa maneira, podemos dizer que temos um “analfabeto” pensando como um sociólogo ou que tivemos um sociólogo pensando como um analfabeto? Fiquei confusa, pois de uma maneira ou de outra que diferença faria então sermos representados por um ou por outro?
Na música “Gentileza”, de Marisa Monte, temos um questionamento muito importante, principalmente em um país como o nosso, com um sistema educacional deficitário, embora culturalmente riquíssimo: “Por isso eu pergunto/à você no mundo/se é mais inteligente/o livro ou a sabedoria”.
Não é possível alguém ser inteligente sem ter se debruçado em milhões de livros? A vida pode educar alguém e proporcionar conhecimento, como no caso de Gentileza. Pode não ser um conhecimento erudito e canônico, mas todo conhecimento pode gerar erudição. Assim como o contrário pode acontecer. Afinal, é possível alguém se formar doutor sem ter raciocínio lógico ou sem ter conhecimento do mundo que o cerca. Não deveríamos nós, mais do que muitos outros povos, valorizar o saber que a vida trás? Eu não apóio o abandono aos livros, longe disso. Talvez devêssemos bater em um liquidificador o sociólogo e o analfabeto e teríamos algo surpreendente. Sempre ouvimos as pessoas dizerem que não deveríamos deixar de ser criança. Nesse momento, eu acredito nisso. Deveríamos olhar para o conhecimento com os olhos de uma criança estudiosa, fazendo sua tarefa, sem faltar às aulas e, ainda, pedindo aos pais e avós que lhe contem algum fato curioso, algo de suas vidas, da história de suas famílias, cultura que não leremos em livro algum.
terça-feira, 2 de novembro de 2010
London, london...little london

A filha, segundo ele, estava na farmácia da rua de cima. Disse a ele que não poderia ajudar, mas corri até lá, apenas para me certificar do óbvio, de que não havia filha alguma.
Fui para casa assustada, um pouco pelo ocorrido em si, e muito com a qualidade artística do rapaz. As redes de televisão estão deixando escapar esses jovens talentos pelas ruas das grandes cidades.
Quando consegui me acalmar, entristeci novamente. Não compreendi o que era pior nessa confusão toda. Chateei-me, claro, com a existência de um mentiroso como aquele sentado por aí atrás da carteira, ou sei lá de mais o quê, de uma pessoa caridosa qualquer. Mas o fato de ninguém sequer olhar para o sofrimento alheio, nem ao menos se preocuparem em verificar os fatos, isso também me preocupou. Ir até a farmácia foi um passo tão simples. E se houvesse mesmo uma criança por lá chorando compulsivamente de medo e dor?
Fiquei surpresa com a facilidade com que julgamos as pessoas sem nem ao menos ouvi-las. Fiquei mais surpresa ao verificar que, grande parte das vezes, estamos certos em nosso julgamento precipitado. O que não exclui nossa responsabilidade em verificar os fatos, creio eu.
Liguei para a polícia. Não voltei para conferir o restante da história.
Não tenho nada com isso, nem vem falar. Eu não consigo entender sua lógica.
Teimo a encarar com naturalidade os passos apressados em uma rua escura, fugindo da própria sombra cada vez mais.
Procuro olhar diretamente para os semblantes raivosos por trás de volantes no final da tarde.
Não consigo entender a voz grave ao lado do filho enquanto a TV grita ao fundo com uma passeata pedindo paz.
Surpreende-me o tom inseguro que usamos para nos defender. E me assusta o excesso de segurança que temos ao atacar alguém.
Não quero entender o grito abafado no travesseiro, o “sim” dito por medo ou o “não” por comodidade.
Prefiro a dúvida, sempre. A certeza fecha caminhos desconhecidos. E o desconhecido não deveria ser encarado pelas nossas bocas raivosas cheias de certeza de nada, andando apressadas pelas ruas e evitando olhares desagradáveis.
O desconhecido deveria ser apreciado com o olhar da curiosidade e da inovação.
segunda-feira, 13 de outubro de 2008
Sobre um Alguém!
Não falemos sobre seu sorriso bonachão, transbordando alegria e uma pitada de deboche.
Não falemos de seu otimismo mesmo em momentos mais difíceis.
Não falemos de seu olhar distante e ameno, sempre mais próximo dos outros que de si próprio.
Não falemos de suas devoções ou da maneira humilde de levar a vida.
Não falemos de seu comprometimento com todos que o cercavam.
Não falemos de seu senso político, atento e mordaz, ou de sua ironia sutil.
Falemos apenas que carregava consigo a quietude de todo bom mineiro. Chegado num dedo de prosa e numa boa xícara de café. E nos pés, entrelaçados em um confortável chinelo de dedo, revelada a marca maior da terra que o acolheu.
Antonio Caparelli.
Nasceu Mineiro de São Tomás de Aquino, Faleceu Paranaense de Londrina.
Deixou filhos, netos, cachorros, gatos, amigos, contas a pagar, genros, noras, quintal para varrer, saudades, muitas saudades!
Não se preocupe, varreremos o quintal por você!
segunda-feira, 7 de julho de 2008
O inocente roubo de uvas!
Assumo perante todos vocês que roubei sim! Roubei e não me arrependo do crime cometido. E digo mais, roubei, não me arrependo e foi premeditado, perguntem ao meu cúmplice, ou vocês acham que fiz tudo isso sozinha? Claro que tive um cúmplice, que pergunta mais tola, eu jamais faria o que fiz sozinha.Foi assim, nós saímos para andar um pouco logo após o almoço, estava sol e não levamos nenhuma garrafa d’água, não demorou muitos estávamos com cede. Continuamos nossa caminhada apesar da cede, ao longe avistamos alguns animais da região e pensamos que por perto haveria algum lago ou riacho, afinal os animais tendem a se instalarem em locais próximos à comida e água. Estávamos certo, contudo na passava de uma lagoa barrenta, a água era inbebível (se é que essa palavra existe).
Resolvemos, então, avançar mais alguns metros atrás de mais alguma fonte de água, posto que aquela lagoa não deveria ser a única fonte de sustentação dos animais dali, estávamos certos de que havia mais alguma. Não demorou muito meu companheiro resolveu investigar o que algumas árvores inocentes escondiam por entre seus caules, quase perfeito, as árvores escondiam uma pequenina nascente, mas era pequena demais para conseguirmos beber daquela água. A água era limpa, cristalina, mas teríamos de andar um pouco mais para achar um local onde essa água límpida não se misturasse mais com a terra do solo.
Foi esse o começo da nossa perdição. Andamos um pouco mais, já exaustos e com muita cede, loucos por uma sombra para descansarmos. De repente avistamos belíssimas videiras e perto delas uma árvore, foi a derrocada final, não resistimos, invadimos a propriedade alheia e roubamos alguns cachos de uva, fresquinhas, geladas até, por causa da árvore que as sombreava. Ali mesmo nos sentamos e saboreamos as glórias de nosso delito, sem o menor sinal de culpa, mas, sejam sinceros, quem nunca roubou uma fruta do sítio vizinho?
quarta-feira, 25 de junho de 2008
FILO
Todos os anos, há quarenta anos, Londrina é invadida por personagens, anjos disfarçados pronunciando línguas que os mortais daqui pouco conhecem. E eles trazem risos, choro e vela. Trazem panos coloridos, olhares de espanto, palmas de satisfação.Esse ano, no entanto, trouxeram algo mais. Trouxeram filas, rostos cansados, bocas indignadas, desorganização.
Mas é claro que tudo se esquece no país dos perdões, e os culpados estão intactos saboreando as glórias de mais uma bilheteria cheia, e nós? Bom, nossas bocas raivosas tornaram-se bocas sorridentes e perpetuadoras do bem logo após nossos encontros (marcados e numerados) com os anjos da dramaturgia, e, enfim, após tanta espera sentimo-nos abençoados.
E àqueles que nos perguntaram, sem entender, pois não conhecem o que é a benção póstuma, nos indagaram, indignados, o porquê da espera tão longa, das dores nas costas, do feriado perdido, para essas pessoas, sinto muito, não nos restou nada além do trocadilho:
terça-feira, 22 de abril de 2008
Questões filosóficas!
Acordei, cara amassada, olhos inchados, má vontade... Parecia ser um dia comum, assim como fora ontem e anteontem também. Mero engano!Ao chegar na sala de aula a bomba estava estampada no quadro havia alguns minutos, em letras maiúsculas para não deixarem dúvidas à respeito da mensagem: PROVA HOJE!
Tremi, como poderia ter esquecido algo assim, prova? Respirei fundo, pensando positivamente, me acalmado aos poucos, tentando arejar as idéias e promover uma maior oxigenação cerebral, inspira, expira, inspira, expira!
- Ora bolas, não pode ser nada tão difícil assim, caso contrário eu teria anotado na agenda para estudar – pensei procurando achar uma desculpa para minha gafe educacional – deve ser com consulta, isso mesmo, não anotei nada porque é uma prova com consulta, provavelmente algum poema para podermos analisar, com certeza é isso... Epa! O que é aquilo anotado mais abaixo no quadro?
Coloquei os óculos para poder enxergar melhor as palavras que seguiam aquele aviso, foi quando o desespero maior tomou conta de mim como se uma corrente de ar extremamente frio tivesse entrado pela fresta da porta: Relacionar o tema com as questões filosóficas.
- Tô ferrada! E agora? eu sabia que não devia ter faltado naquela aula...eu sabia, quais era as malditas questões filosóficas daquela época? Bem...sejamos racionais, já que não fomos muito assíduas às aulas – eu tentava dialogar com minha consciência - qual era o contexto histórico? Claro! Como não pensamos nisso antes – tagarelava ainda sozinha comigo mesma – é o renascimento, certo? Então eles estavam preocupados com o quê? Isso mesmo, como o racional, com explicações racionalizadas.
Um pouco mais aliviada e surpresa com minha rapidez de raciocínio, peguei uma folha em branco e comecei as tecer algumas divagações a respeito da vida e da existência humana.
- Vamos lá, quem nasceu primeiro o ovo ou a galinha? O ovo claro! A célula mãe deve vir antes...mas talvez para eles a célula mãe não fosse assim tão importante, afinal eles são renascentistas, contestam as idéias religiosas, é verdade, como não pensei nisso antes? Para esses pensadores - vou escrever assim na prova para não parecer que inventei - para esses pensadores a galinha vem antes do ovo, visto que – boa, vou colocar lá uns três “vistos que” – visto que eles prezavam o ser, o homem, o racional e não o divino, portanto não a célula mãe que poderia muito bem ser associada à figura divina.
Virei a página, correndo contra o tempo e logo comecei a próxima questão. Pensei claramente nos fatos e na ordem a seguir. Ponderei que como havia tratado do nascimento deveria tratar da jornada terrestre chamada vida, lapiseira a posto, lá fui eu.
- Quem sou? – anotei no inicio da linha e respondi com prontidão logo em seguida – Você é um homem renascentista, provavelmente um escritor ou um filósofo questionador das causas metafísicas. Essa foi mais fácil, vamos para a próxima. De onde venho? Bem isto já foi discutido implicitamente na história da galinha, não...calma..muita calma, não estou querendo dizer que você veio da galinha, não pense isso, por favor, estou apenas reafirmando que o homem do renascimento vem da ciência, visto que – ufa! O segundo “visto que” – visto que vocês são todos ateus, então vocês não vieram de Deus, a célula geradora, assim como a galinha não veio do ovo – uma comparação, muito bem pensado, está ficando muito bom. Seguiremos em frente, qual seria a próxima pergunta...já sei! Para onde vou? Ora, pois se você é um renascentista do séc. XV, no máximo séc. XVI, você provavelmente irá para um cemitério no fundo de alguma igreja, se você for um pensador rico terá um túmulo só seu, com uma lápide e uma frase filosófica lapidada nela, no entanto se você for um pensador pobre será jogado com tantos outros corpos, alguns filhos da ciência como você outros vítimas dela, dentro de uma vala comum.
Olhei rapidamente o relógio, faltavam cinco minutos para a tal da prova começar e eu precisava de pelo menos mais uma reflexão a respeito do assunto, estava obstinada em tirar uma nota razoável, olhava fixamente meu caderno procurando informações no meu cérebro altamente oxigenado, não olhava sequer para as pessoas que começavam a entrar na sala. Segurei firme a lapiseira, respirei fundo, a idéia estava vindo quando de repente a professora entrou, tão calma, pronta para tentar me enganar naquela prova safada que eu sabia tinha sido marcada bem no dia em que eu havia ido ao médico, mas eu estava acima dela, não estudei em casa mas consegui acessar meus conhecimentos prévios, meu raciocínio lógico e estava pronta para tirar um belo dez...
- Ué? Carol, por que ela está apagando o quadro? – perguntei para minha vizinha de carteira.
- Para passar a matéria dela, ou você quer que ela escreva por cima do aviso de prova do curso de filosofia de ontem à noite?
- Que droga! – pensei – ela sacou que eu ia tirar um dez!
segunda-feira, 14 de abril de 2008
Justiça?
Essa semana assisti algumas vezes aos programas da TV, em alguns momentos foi por excesso de tempo, em outros por falta do que fazer, algumas ainda foi questão de estar no local certo na hora certa, o fato é que finalmente acompanhei alguns dos entraves semanais.De todas as reportagens que vi duas, que alias vieram em seguida uma da outra, me chamaram a atenção. Não é novidade para quase ninguém o assassinato da menina de cinco anos, não entrarei em questões com relação ao culpado, não é essa minha proposta. Todos sentiram muitíssimo a morte cruel da menina, e é nesse sentimento compartilhado pela maioria da população que está a matéria que vi no jornal.
A matéria trazia um psicólogo que falou exatamente dessa comoção geral e do que as pessoas fazem em suas vidas a partir de todo esse enternecimento. Dezenas de pessoas que nunca tinham sequer ouvido falar na menina de repente protestam, se exaltam, passam horas em vigília, mal se alimentam, fofocam, mudam suas vidas por conta de uma pessoa desconhecida. Desse evento nós podemos tirar duas observações principais, a primeira, a grandeza de pessoas que se locomovem de seus lares confortáveis para manifestarem-se e chorarem por um desconhecido; a segunda, a imensa falta do que fazer dessas pessoas que, por maldade ou não, transformaram toda a dor e o desespero dessa tragédia num grande circo.
A matéria transmitida logo após a essa trazia uma repórter em frente a uma delegacia na qual alguns dos 17 prefeitos presos por liberação irregular de verbas do fundo de participação dos municípios estavam. A repórter transmitiu calmamente a noticia de que eles seriam soltos junto com todos os outros presos acusados do mesmo esquema, entre eles um juiz federal.
A frente da delegacia estava com pouca movimentação, ninguém protestava, ninguém estava indignado com a impunidade brasileira, não havia nenhum berro por justiça.
É muito obvio que os dois casos mechem conosco de forma diferente, todos nos sentimos mais doloridos e indignados quando vemos a situação nua e crua, com um agravante maior quando falamos de crimes cometidos contra crianças, como no caso do João, o menino que preso pelo cinto de segurança foi arrastado seis quilômetros, ou o caso de Isabela, que acompanhamos a cada dia.
Mas quantas crianças morrem por dia em nosso país vítimas do descaso político, vítimas da impunidade, vítimas de causas invisíveis que geralmente caminham lado a lado com a pobreza.
Não soa absurdo que algumas pessoas mudem suas rotinas por conta de um acidente e deixe que outros 17 saiam sem ao menos levarem consigo uma vaia, um grito de repreensão? Não soa absurdo que ninguém mais se lembre do menino João nem da pequena Madeleine? Não soa ridículo que ninguém se dê ao trabalho de descobrir os nomes das crianças que morreram vítimas da dengue no Rio de Janeiro?
Mas talvez eu esteja apenas criando uma trovoada de absurdos em meio a um belo dia ensolarado, propicio para assistirmos do lado de fora da casa de Isabela sua família entrar e sair.
segunda-feira, 31 de março de 2008
Domingo na feira!
Domingo é um dia engraçado, mesmo para as pessoas que não são religiosas ainda assim parece-me que o domingo é um dia “carismático”, se me permitem a palavra.Não é necessário acordar muito cedo para sentir que há algo diferente a respeito daquele dia. Talvez seja essa atmosfera familiar própria do dia que nos faz agradecer a chegada do domingo, esquecendo ingenuamente que no próximo amanhecer será segunda-feira. Domingo é dia de ir à missa, que num ato de rebeldia pueril teimamos em cabular, é dia de almoçar com a família, mesmo que seja uma família composta de amigos, escolhida a dedo, é dia de não fazer nada, até a TV não faz nada nesse dia, ao menos nada que preste, mas tudo bem, afinal de contas é domingo.
Domingo desses fui à feira, fazia anos que não passeava à toa pela feira, tudo tão colorido, com aromas frescos, com cara de domingo. Comi uma pastel lá pelo meio da feira, e pedi uma Sodinha para acompanhar, santa ingenuidade domingueira, a sodinha veio enlatada! Tudo bem...hoje passa. Pouco a frente vi um carrinho azul, com várias garrafas cheias de líquidos coloridos penduradas ao lado, um bloco de gelo no meio do carrinho e dois passos depois eu já estava comprando uma raspadinha, aquela mesma da porta do colégio, mas essa estava melhor que aquela, esta era a raspadinha da feira de domingo.
No final da rua estavam algumas barraquinhas vendendo flores, e perdido no meio delas os portões escancarados do cemitério. Passei por ali com uma indiferença qualquer, e notei que todas as outras pessoas, até as que entravam pelos portões, também o faziam assim. E não haveria de ser diferente, não em uma linda manhã de domingo.
Virando a esquina a feira acabou, e meu companheiro nessa aventura dominical se espantou com prontidão:
- Já? Nossa, quando eu era criança essa parecia a maior feira do universo, acreditava que nunca chegaria ao fim dela, muito menos tão rápido assim.
Eu ri da inocência dominical de meu companheiro, demos meia volta, começamos a repassar por toda a feira e nos encantávamos novamente com tudo o que encontrávamos, a frustração passou rapidinho, mesmo porque era domingo, não é dia para se frustrar, deixe isso para a segunda-feira!
terça-feira, 18 de março de 2008
Cativou, sim! Mas não abriu a janelinha do avião para gritar seu nome.
Era um chapéu, ou uma jibóia que engolira um elefante? Seria de um asteróide, quem sabe mesmo do B 612, ou seria ele invenção, produto do sol forte do Saara? Não sei bem ao certo. Apenas me lembro que seja pela terra dos homens, seja em uma ilusão interplanetária, Saint- Exupéry gostava mesmo era de voar sob desertos, jamais fora muito fã de mares, mergulhar não era seu passatempo predileto, e há 64 anos foi a água que amorteceu seu “mergulho”.O avião em que estava foi derrubado por um piloto alemão, o qual jura de pés juntos que não sabia ser o escritor o derrubado, de quem, aliás, era muito fã. Chegou ao cúmulo de afirmar que caso soubesse se tratar de Saint, não o teria atingido.
Acho que o escritor francês ficou, quase, muito feliz ao saber dessa intenção de Rippert, o piloto alemão. Talvez tivesse massageado o ego intelectual de Saint saber que bastava abrir a janelinha e gritar “Je suis Saint- Exupéry”, e isso lhe pouparia o “banho de mar”, pobre dos outros pilotos abatidos pelo mesmo alemão, nem esse apelo da fama tiveram, morreram sem poesia em suas vidas, sem remorsos por parte do germânico.
Remorsos, digamos nós, muito bem superados, posto ter guardado o segredo debaixo do travesseiro por tantos anos e em momento algum perdido o sono, ou quem sabe o tivesse abalado tanto a culpa por tamanha perda que preferisse não comentar? Não sei ao certo, difícil dizer, teremos de esperar o livro que virá nos contar parte a parte o ocorrido.
Talvez a revelação da não intenção de derrubar o escritor faça algum sentido afinal de contas. Derrubar qualquer outra máquina não o consternaria tanto, pois apenas aquele um o havia cativado, sentia-se responsável apenas por aquele um, e se nem a raposa atacou o pequeno príncipe, que por sua vez conservou em uma redoma sua rosa, por que haveria Rippert de querer atacar Saint- Exupéry?
segunda-feira, 10 de março de 2008
Passou que nem vi!
Programas na TV, passeatas, reportagens especiais, bombons nos sinaleiros, flores no mercado, mas sejamos honestas, passou que nem vimos o dia da mulher acontecer.Não vimos, umas porque trabalhavam naquele exato momento, outras porque dormiam, ao guardarem o sono dos filhos, ou suspirar pelo ronco do marido.
E assim passou que nem vimos acontecer, e o dia oito acabou, com a mesma rapidez que o leite havia findado, e a roupa limpa também.
Ora pudera, nem é feriado nem nada, não move comércio, não financia shows, não suscita gastos, não deixa de ser apenas mais um dia como outro qualquer, afinal qual o propósito de comemorar a queima dos sutiens na era dos moderníssimos “sem costura” e que liberam hidratante pouco a pouco?
Igualdade de gêneros coissíma nenhuma, o homem sempre será prosa, a mulher é mais poesia. Dia oito porcaria nenhuma, pois eu decreto que é hoje o meu dia!
segunda-feira, 3 de março de 2008
Quem são nossos heróis?
Não faz muito tempo recebi um e-mail com essa exata pergunta: “Quem são seus heróis?”, abri a mensagem ainda com a idéia de que se trataria de mais um daqueles e-mails sobre super-heróis do passado, desenhos animados da década de 80, mero engano.A mensagem dessa vez trazia a frase que Pedro Bial solta, noite após noite, Big Brother após Big Brother, para introduzir-nos ao mundo da “casa de vidro”: “Vamos espiar nossos heróis!”, e logo em seguida vinha a indagação maior do escritor da mensagem eletrônica: “Nossos heróis? O que fizeram de tão interessante para ganharem esse título?”.
Não me contive em pensar no que caracteriza um herói, seria uma roupa engraçada, uma capa, a habilidade de salvar o mundo ou o amor infindo em seu coração? Há tempos atrás heróis, bem vistos e admirados pela população, eram os intelectuais, imersos em seus livros e, em outras épocas, dispersos em discussões emblemáticas nas mesas dos bares, cheios de teorias filosóficas sociais e descobertas cientificas.
Com suas equações matemáticas fizeram o homem voar, se comunicar por meio de ondas invisíveis, fez-se a luz, criaram novas religiões, ideologias de tamanho peso sócio-cultural que são seguidas e respeitadas até os dias atuais.
Os heróis/intelectuais eram os rebeldes de seus respectivos períodos, no entanto, a despeito dessa rebeldia, refletiam um ideal coletivo, foram à frente de seu tempo por enxergarem necessidades já existentes, mas que os olhos “destreinados” da maior parte da população não conseguiam perceber.
Hoje, para nós meros mortais, ligar nossa telinha de “realidade virtual” em uma discussão política ou um documentário a respeito das mudanças sociais soa ridículo, sem propósito, verdadeira perda de tempo ficar prostrado em frente a TV para assistir discussões as quais “não pertencemos”, muito mais proveitoso nos embrenharmos pelo quintal das casas dos “reality shows”.
E talvez Bial esteja certo, parcialmente certo, calma, abaixem as armas que eu explico. Talvez ele esteja certo em chamar os confinados na “casa de vidro” de nossos heróis pelo simples de fato de que chama-los assim não os tornam heróis de verdade e, nunca na história do mundo um herói verdadeiro, nos moldes antigos, foi assim denominado em vida, ao menos não pela população em geral. Os heróis/intelectuais tanto não foram reconhecidos que na inquisição muitos foram queimados a mando do próprio povo.
Dessa forma, notamos como a história se repete, e Bial é um fruto dela, um representante do povo, e não dos intelectuais, por isso ele promove, junto ao restante da população, a ascensão de heróis de papel, enquanto nós, inquisidores, queimamos diariamente heróis/intelectuais cada vez que mudamos de canal e escolhemos o “reality show” ao invés da discussão política, da entrevista com um literato, do filme realmente bom, mas sem o selo de Hollywood.
Afinal, como já mencionei, a história é cíclica, e seria assim independente das afirmações inúteis do Pedro Bial.
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008
Todas as mulheres do mundo!
Ontem acordei tarde, passava do meio-dia. O sol ardia em minha janela e cintilava nas lantejoulas de algumas peças de roupas espalhadas pelo chão. Levantei meio atordoada, tropecei em uma sandália plataforma, onde andaria o outro pé? Com certeza não deveria ter bebido tanto na noite anterior, mas são ossos do oficio, sem bebida não há quem suporte aquela música alta, as frases gritadas, as luzes fortes que acompanham o ritmo das músicas em meio a uma verdadeira escuridão.Engraçado pensar que semana passada eu era uma professora recatada do ginásio. Saias compridas, cabelos em coque, blusas com golinha japonesa e magas três quartos. Tons pastéis. Sapato de salto discreto, às vezes uma sapatilha bem confortável. Adormecia por volta das onze horas, lendo romances russos, poucas vezes um nacional, e despertava todos os dias cedo. Levava uma vida regrada, dentro de todos os limites que me eram impostos pela sociedade. Não me encantava quebrar limites.
Vida muito semelhante a da secretária que fui meses antes. As roupas, o cabelo, pouca maquilagem, acordar cedo, ser recatada, contudo o salto era maior, não muito maior é verdade. E eu era mais expressiva, era calma, meio quieta, mas tinha vários amigos e saíamos sempre, íamos a restaurantes, apresentações teatrais, bares.
Foi uma época muito produtiva, talvez tão rica quanto minha experiência como atriz de teatro, embora a ‘eu’ atriz tivesse um comportamento muito semelhante a ‘eu’ que acordou ontem tropeçando em sandálias.
Os ensaios começavam sempre às dez da manhã, eu, claro, chegava de ressaca todos os dias. Ao meio dia parávamos para almoçar, eu engolia qualquer coisa rápido e tirava um cochilo nas cadeiras no fundo do teatro. Nas próximas duas horas discutíamos sobre nossas performances, quais eram os pontos fortes e os fracos de cada um, como deveríamos melhorar isso e aquilo, como seria a noite de estréia.
Festas; como festejávamos a vida. Tudo era motivo para uma noite no bar, um jantar na casa de alguém, um churrasco, um encontro, um porre.
Mas as estréias eram boas, o público aplaudia em pé, a casa vivia lotada, os ingressos esgotados, e nosso bolso vivia vazio.
Foi minha “pós” de uma graduação que fiz detrás dos picadeiros. Pois é, trabalhei anos antes por detrás dos palcos de um circo. Não era um grande circo, não era uma grande profissão, mas pagou muito bem minhas contas durante algum tempo e me rendeu um rebolado que só o circo pode ensinar.
Como disse, minha vida foi no back stage, nada de glamuroso, nada que merecesse palmas em pé. Eu limpava as jaulas dos animais, fazia contorcionismo na jaula dos jacarés, malabarismo com o esfregão na jaula dos leões, e mágica para desaparecer a sujeira da jaula dos elefantes.
Foi nessa época que aprendi a valorizar meu tempo livre, cada segundo de descanso era posto num pedestal, era o instante mais bem aproveitado do meu dia. Mas era um emprego interessante, e a trupe era muitíssimo divertida. De todos os meus afazeres, o mais chato era acordar às cinco e meia da manhã para dar um peteleco no galo cujos berrinhos se encarregavam de acordar o restante do povaréu circense.
Está certo que acordar antes do sol não era novidade para mim. Houve um tempo, quando fui freira em um convento lá no interior paulista, em que acordar cedo era dormir muito. Todos os dias acordávamos às quatro para rezarmos antes de preparar o café da manhã. A elevação do espírito nos ajudava a enfrentar melhor as desavenças do dia-a-dia e, dessa maneira, melhor auxiliarmos nossa comunidade.
Líamos a bíblia ainda em jejum, e aos domingos participávamos da missa matinal, só depois começava nosso dia de laboro.
Cuidávamos de uma creche comunitária, cada irmã ajudava de acordo com sua formação acadêmica, ou suas habilidades. Eu, graduada em pedagogia, dava aula para as crianças e planejava suas atividades extras, trabalhava principalmente em conjunto com a irmã Ana, graduada em música, e a irmã Sandra, também pedagoga.
Foram dias glorificantes. As crianças os fizeram assim, dias harmoniosos, iluminados.
No entanto, ontem, como eu dizia, acordei dançarina de uma boate, uma profissão um pouco triste, um pouco feliz, com certeza ingrata e difícil, mas, como as anteriores, de grande valia e imenso aprendizado. Isso não se discute. Não se encontra no mercado o quanto aprendi com todas as mulheres que fui.
Só que isso aconteceu ontem, pois hoje acordei e no meu quarto não havia plumas nem paetês, nem esfregões ou scripts. Olhei no espelho e a imagem refletia uma feição conhecida, era eu ali, a mesma velha e irrequieta escritora de sempre.
* escrevi pensando no filme de Domingos de Oliveira, mais que na versão original com Leila Diniz e Paulo José, na música da Rita Lee e em uma entrevista de Lygia Fagundes Telles.
terça-feira, 12 de fevereiro de 2008
No elevador!
Segunda-feira, sete da manhã. O elevador pára no primeiro andar, uma bela moça entra e educadamente deseja um bom dia ao ascensorista, o qual gentilmente devolve o sorriso e o “bom dia”._ Garagem, por favor. – pede a moça, que ao chegar ao seu destino despede-se e agradece os serviços do ascensorista _ Obrigada, tenha um ótimo dia de trabalho!
O elevador volta ao térreo. Ao longe o ascensorista observa uma figura gorducha, caminhando a passos longos, cabelo penteado para trás, pasta na mão, e ...
_ Essa não! – pensou o ascensorista assim que reconheceu a figura, e disse a si mesmo _ Lá vem a mesma piadinha sem graça de todos os dias.
E assim que chegou próximo o suficiente para ser ouvido, embora não em tom baixo, o rapaz bonachão grita:
_ E aí Seu Zé, firmeza?
Seu Zé respondeu com a educação de costume:
_ Tudo Bom, e com o senhor?
E conforme ia entrando no elevador o rapaz soltou a piadinha que acompanha a relação dos dois:
_ E ai Seu Zé, pronto pra subir na vida? Vamo lá pro catorze.
_ Sim senhor! – responde com um risinho apenas para manter a amizade.
Ao chegar ao catorze o rapaz se despede e entra em uma porta de vidro muito elegante onde trabalha há alguns anos já.
O dia de Seu Zé passa assim, entre “obrigados” e “bons dias” com raros momentos de descanso. Em um desses momentos reclamou a si próprio:
_ Poxa vida! Ninguém me pergunta algo descente nesse elevador, e eu tenho tanto a falar. Nunca pedem minha opinião sobre algo que passou no jornal, agem como se eu fosse uma das portas dessa caixa de metal, eu apenas subo e desço.
Ora bolas – continuou- eu leio, ouço música, e música boa, muito melhor que essas porcarias que tocam aqui o dia todo, eu saio aos sábados, vejo filmes, tenho muito mais a dizer que simples “sim senhor!”.
Confabulou sozinho durante alguns minutos até um rapaz distinto o arrancar de seus sonhos:
_ Boa tarde, como vai o senhor? – perguntou o rapaz.
_ Muito bem, obrigado. – respondeu educadamente ao rapaz, celebrando por dentro a mudança de repertório, imaginado que talvez naquele instante fosse finalmente travar uma conversa interessante. _ E o senhor? – perguntou ao moço – Como vai?
_ Muito bem, obrigado. Eu gostaria de ir ao décimo sétimo andar, por favor.
_ Sim senhor!
_ Diga-me – começou o jovem, enquanto Seu Zé mal podia conter a alegria que transbordava em seu olhar, sua imaginação fervilhava só de pensar qual seria o assunto abordado, seria sobre o incêndio na Alemanha? “Culposo, claro!” pensou, ou seria sobre o Rally Dakar? “É, na Argentina eu vi, estranho não?”, ou seria ainda sobre a redução da jornada de trabalho? “Ah, precisa né? A gente trabalha muito! O senhor não acha que merece um descansinho a mais?”.
Seu Zé parou de sonhar por um segundo, respirou fundo e esperou o assunto vir.
_ Quem o senhor acha que vai ganhar esse Big Brother?
_ Tenha um bom dia, respondeu Seu Zé radiante com a chegada do décimo sétimo andar.
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008
Ser mulher é pra descer do paraíso!
Começo de ano e as formaturas rolam soltas. E ainda que contando com desistentes, aumento anual de meros conhecidos, e amigos que preferiram ir para a Europa, não adianta, a gente sempre é amigo de pelo menos um formando!E com tantos chapéus voando pelos ares, tantas faixas, gritaria, corneta, papel colorido caindo do céu, além disso, temos a festa. A tão elegante e tradicional festa que consome algumas horas até das pessoas menos festeiras. Não há como fugir!
Lembro-me de um comentário solto no fundo da sala, pobre do menino que o soltou, de que seria mais proveitoso fazer um “baita churrasco”, “churrasco?” perguntou indignada uma voz feminina, “churrasco você faz domingo, essa é a noite mais importante das nossas vidas!” completou a mesma voz.
Logo após esse comentário não me contive em pensar que essa voz feminina uma dia se casaria, compraria sua primeira casa, teria seu primeiro filho, como ela poderia estar tão certa de que aquela era a noite mais importante de sua vida?
Não consegui também deixar de lembrar das antigas formaturas que fui, semanas procurando o vestido certo, as sandálias que combinassem melhor, o melhor penteado, os acessórios, cortar os cabelos, depilar as pernas, enquanto meu irmão fez a barba e colocou a mesma roupa que usou no casamento de nossa tia, o mesmo sapato, a mesma gravata, “que injustiça”, pensei, “logo eu que ganho menos, custo mais!”.
Não faz um mês vi uma reportagem falando sobre o piso salarial feminino, finalmente as mulheres ganham o mesmo que os homens. E isso era tudo o que passava pela minha cabeça enquanto olhava seriamente de arara em arara, analisando cada etiqueta de preço e pensando “quanto vai me custar o sapato que combina com isso?”.
Pode até, aos olhos de alguns desavisados, parecer bobeira uma preocupação dessas, no entanto me corroia o fato das mulheres não terem seu trabalho valorizado, monetariamente, como o homem e terem de se vestir muito melhor. E não falo das que insistem em usar roupas caríssimas, tratamos aqui da mulher tradicional, aquela do “dia-a-dia” mesmo, que trabalha oito horas, faz comida, lava a louça, busca o filho na escola, ajuda a fazer tarefa. Aquela que ao se dar o luxo de contratar uma ajudante, alguém só para lavar o banheiro e passar as camisas do marido, ainda agüenta o olhar de desagrado vindo por de trás da lata de cerveja sentada no sofá.
Quanto custa para essa mulher aí de cima ir para a academia, por exemplo? Ela precisa de calça nova, e uma blusinha, que ela vai alternar com as velhas guardadas no guarda-roupa. E o homem? Ele vai com o mesmo par de shorts que usa em casa aos domingos, uma única camiseta basta, e ninguém vai ousar chama-lo de desleixado. Aliás, os shorts são os mesmos para ir à piscina, já a mulher precisa de biquínis, caros pela própria natureza. Pois então, não te soa injusto ganharmos menos?
E tudo isso passava como um filminho enquanto lembrava dos vestidos comprados, roupas caras que não posso me dar ao desfrute de repetir. Bem, talvez eu reclame em nome de mulheres que ainda não fizeram as contas entre o quanto o mercado paga por sua mão de obra, e o quanto ele mesmo exige em gastos, afinal o homem escolheu o “churrascão” sem pompas, vestidos longos, arranjos de mesa, mas com muita comida e diversão, enquanto a mulher fez questão de fazer de sua formatura a noite mais importante de sua vida.

